A descentralização favorece essencialmente os centros urbanos

“Um dos aspetos que tem castrado o nosso desenvolvimento é seguramente o clássico centralismo que, há anos, se impõe de forma impiedosa na sociedade portuguesa. O experimentalismo que, nos últimos anos, tem caracterizado os avanços e recuos no que respeita à localização dos centros de decisão política, demonstra claramente que faz falta um projeto substantivo, sobre as questões relacionadas com a proximidade do poder aos cidadãos. Entre os modelos de descentralização do poder e os modelos de regionalização há um mundo de incógnitas, e um incontável número de perguntas por responder (...) Julgo que está a chegar o momento de promover um aprofundado debate nacional sobre o modelo de
cisão política que devemos traçar para o nosso próximo futuro. Não creio que seja através de um novo referendo, feito à pressa, que se encontrarão com tranquilidade as necessárias respostas para este tipo de questões. Não creio, tão pouco, que o frenesim das campanhas seja um instrumento minimamente satisfatório para esclarecer dúvidas e dar respostas aos verdadeiros problemas que estas matérias nos colocam.

Tenho a convicção que a pior maneira de reequacionar os modelos de decisão e de representação política, hoje, em Portugal, será empurrar o debate para as arenas das campanhas partidárias, sob a batuta do marketing político, qualquer que seja o cenário em que as mesmas se desenvolvam. Por isso, julgo que é esta a hora de se começar a promover um grande debate nacional, balizado por um largo consenso entre as diversas forças políticas, no sentido de dar resposta às questões nucleares constantes dos figurinos clássicos da regionalização. Não podemos ter ilusões: se não é possível imaginar um modelo de decisão em que todo o País se reveja - até porque o unanimismo é ele próprio uma ameaça à democracia – também não é salutar nem aceitável que o redesenho de um qualquer novo mapa de regionalização seja decidido e imposto por maiorias conjunturais. Mais importante
do que traçar um mapa a régua e esquadro à luz de bacocas conveniência partidárias, é estabelecer uma plataforma de competências políticas, de representação eleitoral, e de financiamento sustentado dos eventuais novos órgãos de poder. São estas as questões sobre as quais, em nome do País, temos de pensar madura e responsavelmente (...)”.